domingo, 23 de outubro de 2011

Ars gratia artis

Sempre pode-se perguntar qual será a utilidade da arte. Bom, a arte não é necessariamente construída para ser útil em algum aspecto do cotidiano; claro que há obras que se propõem a um engajamento político ou crítica social, como no teatro de Berthold Brecht ou como nas canções de Chico Buarque. No entanto, ninguém nesse mundo tem a prerrogativa de julgar algo como arte ou não pelo simples fato de não carregar consigo algum valor político, social, religioso ou de qualquer outra ordem, porque aquilo que toca o espírito não segue regras ou normas oriundas do interesse egoísta individual ou de grupos; apenas toca.

Nietzsche nos disse que o mundo sem a música seria um erro, talvez eu possa ampliar o conceito e dizer que o mundo sem a arte seria um crime, já que viveríamos nessa panela de pressão, em que somos cozinhados todo santo dia, sem uma única válvula de escape. Os homens seriam mais embrutecidos, nada criativos, como os operários do belo filme Metrópolis de Fritz Lang, que seguiam a lógica industrial do século XIX de viver para trabalhar e trabalhar para viver, alienados, reduzidos a míseros autômatos. Como triturar esses corações petrificados para gerar um solo propício à disseminação de flores e frutos, senão através sensibilidade que a arte carrega consigo? Aqui chego onde queria: a arte e o amor são um casal eterno que nunca se separam, onde um é fonte de inspiração ao outro, e assim se auto alimentam continuamente, como um moto perpetuo, pondo abaixo as leis físicas da termodinâmica; mas como já disse, a arte não é da matéria, portanto está além de qualquer norma ou lei; ela é dos sentidos, por isso pode ser tão enobrecedora quanto perigosa.

O melhor exemplo para isso é o romance do mestre Goethe, "Os sofrimentos do jovem Werther". É uma obra que marca o início do romantismo, e influenciou uma massa de jovens leitores a sofrerem junto a um protagonista cujo amor não foi correspondido, que de tanta paixão o levou à morte; comportamento que foi reproduzido como uma onda de suicídios entre jovens desiludidos com os amores que não poderiam ter. Em contrapartida, ainda no mesmo movimento romântico para mostrar uma outra face, há exemplos de influências construtivas, como a biografia romanceada de Myamoto Musashi, marco do romantismo japonês, escrita por Eiji Yoshikawa. No livro Musashi, Eiji mostra a construção e evolução de um ser humano, moldado a partir de um animal embrutecido até a condição de sábio; de um agressivo ronin (samurai andarilho sem mestre) até o mais famoso samurai que existiu no Japão; sabedoria e vida reta que também inspirou gerações a buscarem se aprimorar, tal fez Musashi. 

Se estamos falando de romantismo, claro que também estamos falando de excessos, essa é a semelhança dos dois livros; no primeiro, Goethe escreve baseado em sua própria experiência já que igual ao jovem Werther também passou por um desalento amoroso, porém diferentemente do protagonista não se matou, tanto que escreveu seu livro depois; já no segundo, existia a busca para a criação de um herói nacional, que desse uma identidade ao povo, disso foi inevitável a idealização, com fatos históricos suprimidos e outros criados, para dar à vida mais luz do que poderia eventualmente ter.

Mas assim é a arte, colore, dá brilho, torna a prosa em poesia, para dar aos sentidos algo mais agradável de tocar, ouvir, ver e sentir; se fosse apenas uma reprodução daquilo que vivemos, não haveira motivo para ela existir, ou melhor, não seria arte. A arte nos leva a sonhar, imaginar coisas fora do cotidiano, viver outra vida; ela nos dá a dose de ilusão que precisamos todo dia, para que, embriagados, possamos nos inspirar, ver o mundo com outros olhos, quebrando a alienação da pressa e das tarefas do dia a dia, e talvez, até, criar mais arte.

Um comentário:

  1. Adorei o texto! Inspirador e verdadeiro. Dia desses estava tentando imaginar um mundo sem música. Não consegui...

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